Vozes negras merecem ser ouvidas o ano todo

Por Adriane Souza*

Adriane Souza
Ser uma mulher negra em posição de liderança no Brasil, infelizmente, ainda continua como uma exceção. Dados do Instituto Ethos mostram que nós ocupamos apenas 3,4% dos cargos executivos no país, enquanto os homens brancos representam 60,8%.

Vivemos em um país onde o topo das organizações permanece predominantemente branco e masculino. Com isso, pessoas que fogem desses estereótipos acabam não tendo o destaque que merecem, mesmo demonstrando competência, resistência cotidiana de quem precisa abrir caminhos para se destacar e não desperdiçar nem mesmo as mínimas oportunidades.

Eu me coloco nessa posição, já que, como mulher negra e vinda de uma cidade do interior Paraná, tive que lutar para conquistar o meu espaço no empreendedorismo. Há 11 anos comando uma agência especializada em assessoria de imprensa, produção de conteúdo e consultoria estratégica, em Sorocaba (SP). O que busco, com minha história, é inspirar outras mulheres a buscarem um lugar de destaque. No entanto, encarar essa jornada está longe de ser fácil.

Quantas mulheres negras você vê em cargos de liderança? São muito poucas. Somos quase inexistentes nesses espaços. Socialmente falando, estamos três vezes para trás: na raça (cor), no gênero e na classe social. Nem todas conseguem as mesmas oportunidades.


Além de surgirem poucos caminhos para o crescimento profissional, muitas mulheres enfrentam, ainda, outra dificuldade: a falta de capacitação profissional. Entre as mulheres com 25 anos ou mais, segundo dados do Censo 2022, apenas 7% tinham nível superior completo.

Às vezes, quando as oportunidades surgem, pode ser que não estejamos prontas, mas é importante agarrá-las e nos prepararmos no meio do caminho. Não podemos ficar para trás.

Ser exceção é um caminho solitário

Ser exceção no meio empresarial é uma experiência solitária. Em diversas situações, tive a minha autoridade colocada à prova antes mesmo de demonstrar a minha capacidade. Já fui interrompida várias vezes em palestras, como se quisessem garantir que eu sabia o que estava fazendo. Precisei sorrir, manter o bom humor, e mostrar que, sim, eu sabia.

O desgaste é profundo e invisível. O que mais me fere é o cansaço de ter que “me provar” o tempo todo. É desanimador. Eu queria, uma vez na vida, apenas “ser”. Parece uma besteira, mas as pessoas não fazem ideia do que é passar por isso todos os dias, do tamanho da cicatriz que fica dentro de nós.

Além do mês de novembro

Algo que luto bastante é para que nossas vozes sejam ouvidas o ano todo, e não somente em datas específicas, como em novembro, mês da Consciência Negra. Durante o ano, raramente sou procurada para falar sobre minha trajetória profissional, mas, em novembro, repentinamente todos se lembram de mim.

Reconheço a importância do mês, que é um marco de luta, reconhecimento, memória e celebração. Apesar disso, questiono o modo como o mercado e a imprensa ainda reduzem trajetórias negras a pautas sazonais. Com mais de uma década de experiência na área da comunicação, acaba sendo frustrante não obter espaço para compartilhar minhas perspectivas empresariais.

Parece que só posso ser ouvida quando o tema é cor de pele. Mas vou muito além disso: sou jornalista; comunicadora; líder; proprietária de uma empresa. Tenho mais de 11 anos de experiência como proprietária e muito mais como comunicadora. Isso também merece estar em pauta.

Essa visão pontual e limitada, é reflexo do racismo estrutural que ainda organiza o olhar coletivo. É como se a nossa história só importasse quando ela serve de exemplo para a data, e não quando pode contribuir profissionalmente para o debate sobre comunicação, gestão ou negócios.

Até que chegue o dia em que eu seja lembrada não só como mulher e preta, mas como profissional comunicadora, líder e CEO, seguirei escrevendo, palestrando, abrindo portas e criando oportunidades. Nossa presença precisa ser vista como regra, não como exceção.

Adriane Souza é jornalista, comunicadora, palestrante e CEO da Maktub Consultoria em Comunicação.

Fonte: Maktub Consultoria em Comunicação

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