Porque O Expresso Polar é atemporal


Assisti novamente ao longa-metragem de O Expresso Polar esses dias, como tenho costume de fazer todo fim ou começo de ano há um tempo, por ser o meu filme preferido de Natal. De presente, ganhei algumas lembranças de família que gostaria de registrar, além de compartilhar minhas ideias sobre essa história, de forma livre e com spoilers. Tenho certeza de que este texto é para quem já conhece a obra. 

Eu me lembro de quando meu pai trouxe este filme a primeira vez para casa. Era uma época em que não existia streaming e víamos os filmes em mídia física, num DVD que rodava os discos (eu ainda tenho um DVD em casa). Era um período mais simples para escolher o que assistir, pois as opções eram poucas e tínhamos que comprar cada uma individualmente, ou pegar emprestado. Quem apresentou O Expresso Polar para o meu pai foi um amigo dele.  

Sei também que, depois de assistir a esse filme, eu pedi um guizo de Natal. UM guizo. Não qualquer guizo, o guizo do Papai Noel. Não lembro quantos anos eu tinha quando isso aconteceu, mas sei que era idade suficiente para escrever sozinha uma carta, e também para pensar em não contar para ninguém que eu queria esse presente, pois assim, se o Papai Noel existisse mesmo, ele o traria para mim. 

Eu não contei para ninguém; e ele trouxe. No Natal, eu dormi na casa da minha tia e, quando acordei, ao meu lado, estava um único guizo com fita vermelha. Não me lembro como foram os natais seguintes, se eu continuei a acreditar ou não. Esses dias, meu pai me contou o que aconteceu: minha mãe achou a carta que escrevi, é claro, e lá foram meus pais atrás de um guizo para mim. Hoje eu sei por que pedi o guizo. 

A criança é interpretada pelo ator Josh Hutcherson

Sou bem parecida com o personagem principal da história, o menino que, na véspera de Natal, duvida se o velhinho vai mesmo aparecer. Ele quer acreditar, mas não consegue. A ideia é ver para crer, então ele procura num livro se o Polo Norte é um lugar habitável ou não, porque ele quer ter certeza. Quem não tem essa personalidade, não entende a agonia da dúvida nem que tente. 

Até que o Expresso Polar para na porta da casa do garoto, um trem que o levará até o Papai Noel na noite de Natal. E ele parte para essa aventura divertida, com novos amigos, chocolate quente e alguns (muitos) desafios pelo caminho. Para os adultos, esse é o clássico filme que mostra que o importante é a jornada, e não o resultado final. Uma ideia talvez batida, mas muito verdadeira. E não só isso. 

Tom Hanks é o condutor do trem

A espinha dorsal do filme fica com o brilhante Tom Hanks, que interpreta o condutor do trem, um personagem bastante carismático e, na verdade, bem parecido com a nossa criança. A dualidade entre ele e o menino é bem interessante de acompanhar, pois é como se o condutor visse a si mesmo enquanto criança, na figura do garoto. Tenho a impressão de que a palavra final escrita no bilhete de trem dos dois foi a mesma. O condutor a recebeu quando pequeno, e agora a passou adiante. 

O longa cresceu ainda mais para mim quando descobri que o ator é quem também faz o passageiro misterioso do teto do trem, pois eu adoro esse personagem que não sabemos se existe mesmo, ou se não existe, e que toma um café com uma textura muito estranha. E tudo bem não saber. Na verdade, o fato de Tom Hanks ser o condutor, o passageiro misterioso e o Papai Noel (sim, ele também faz o Papai Noel) cria uma unidade na história em que pessoas diferentes passam a mesma mensagem ao menino. E por isso ela brilha. 

Ao longo da vida, esse filme ganhou muito espaço para mim, e hoje me arrependo um pouco de ter dado embora o meu guizo. Às vezes, eu queria ter esse objeto físico para me lembrar. Mas a parte boa é que todo ano posso assistir à O Expresso Polar, e para mim nem o guizo, nem o filme ficarão velhos. E eu espero que para você também.

Sempre pensei em que tipo de filme mostraria aos meus filhos, um filme que fizesse sentido para mim e para minha história, por mim. E fiquei feliz quando descobri que esse é um deles. Ainda bem. E acho que eu seria uma jornalista muito tola se não terminasse esse texto com a ilustre ideia compartilhada no fim do longa, dita pelo condutor ao menino: "Sabe o que dizem dos trens? Não importa o destino, o que importa é decidir embarcar". 

No filme, depois dessa fala, o garoto sorri. E aqui, eu também sorrio. 

Comentários

  1. Claro que eu chorei, né? Lendo o texto, assistindo ao filme... mas é emoção, não é tristeza. É uma alegria calma, satisfeita, plena...
    Que bom que você escreveu!!!!!

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