A Cidade do Sol | Khaled Hosseini (Resenha)

A Cidade do Sol é um livro sobre sacrifício. Escrito por Khaled Hosseini, escritor afegão natural de Cabul, ele acompanha a trajetória de duas mulheres com origem, educação e história de vida completamente diferentes. Histórias essas que se encontram quando as duas compartilham o que é ser uma mulher afegã diante de um cenário político de muita instabilidade, guerra, intervenção e ascensão de grupos extremistas.

Na narrativa, Mariam tem 14 anos e é filha bastarda de um homem muito rico e influente de Herat, dono de um cinema, de muitas propriedades e que é casado com três esposas. Ela vive num lugar afastado, junto com a mãe, numa cabana simples e pobre e não tem ambições. Aos 15, é obrigada a se casar com Rashid, um homem mais velho, de dentes amarelados e que cheira a cigarro. Assim, ela vai embora para sempre para viver em Cabul. 

Já Laila frequenta a escola e tem um pai professor que a incentiva a ser o que quiser. Ela tem tudo para, quando crescer, ser mais do que uma esposa. Mas a história nos mostra que, às mulheres, resta pouco além da tarefa da família e do cuidado. Da responsabilidade e da proteção. E que, por isso, não há possibilidade de escolha real. Quando o destino das duas se encontram, elas enfrentam juntas o regime violento do Talibã. E estão sozinhas.   

Quando as escolas são fechadas, quando é proibido andar na rua sem a presença de um homem, quando não se pode cantar, dançar, mostrar o rosto, usar joias, cosméticos, pintar as unhas, rir ou mesmo falar, o que sobra para uma mulher afegã? O que resta para uma mulher afegã quando ela é tratada como um animal, uma mercadoria pelo marido, sofrendo todo tipo de violência? Só resta a ela, se tiver sorte, uma outra mulher. 

Khaled Hosseini | Fonte: site oficial do autor 

Desde 2021, o Talibã retomou o poder no Afeganistão. Então, ler A Cidade do Sol, lançado em 2007, é quase como ler um retrato atual da sociedade afegã. Encontrei um artigo muito interessante da ONU, escrito em agosto do ano passado, à respeito desse assunto. Ele diz que 78% das jovens afegãs não estão estudando ou trabalhando. As mulheres não podem frequentar a universidade e a escola depois do 6ª ano. 

Por conta da miséria e da pobreza, as famílias recorrem ao casamento forçado como forma de sobrevivência. Em 2023, quase 30% das meninas afegãs menores de 18 anos estavam casadas, incluindo 10% com menos de 15 anos. Elas enfrentam problemas de mobilidade, acesso à saúde e discriminação, além de não poderem frequentar parques, academias ou clubes em geral. Dessa forma, o trabalho de Khaled Hosseini com este livro é uma denúncia.

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Estima-se também que, até este ano, o número de gestações precoces aumente 45%. Além disso, menos de 7% das mulheres têm conta bancária, além de todas estarem excluídas da vida política. Para a escrita deste texto, eu também assisti à um especial da CNN sobre o Afeganistão após a retomada do poder pelo Talibã, publicado em 2021, em que homens e mulheres são entrevistados para contar suas percepções sobre esse movimento. Nesse sentido, a narrativa visual complementa ainda mais o que é descrito e vivido no livro.

Fiquei muito surpresa com a escrita do autor. Não me lembrava do quão bem ele é capaz de amarrar uma história, conectar pontos discutidos lá no começo, no fim. E a habilidade dele de ir soltando pequenos spoilers da história ao longo do livro, quando ainda não temos nenhuma noção do que vai acontecer dali para frente o faz ser sensacional. 

Além de A Cidade do Sol e O Caçador de Pipas, Khaled também escreveu O Silêncio das Montanhas e A Memória do Mar, livros que eu ainda gostaria de ler.

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