O dia em que caminhei com os gigantes sobre a Terra (uma homenagem ao Led Zeppelin)

Fonte: Divulgação.

Por Luiza Lamas*

Em agosto, na Pós Graduação em Comunicação e Retórica pelo Centro Universitário Belas Artes (que estou cursando), tive cinco aulas incríveis sobre Escrita Criativa. Como trabalho final para a disciplina, o professor pediu que escrevêssemos um texto a partir de uma música, filme ou produção que nos encantasse e nos tocasse de alguma maneira. Foi assim que fiz a minha homenagem ao Led Zeppelin, pois me permiti imaginar como seria presenciar um show da banda.
 
A partir da música No Quarter, apresentada em 10/12/2007, na Arena O2, em Londres, com a única reunião da banda após o fim, quase 30 anos depois (vídeo a seguir), tive a oportunidade de imaginar que em 2007 eu já tinha 27 anos, e não apenas 9 (como na vida real), e estava presente no show. Se eu tivesse 9, com certeza, os sentimentos seriam outros e eu não daria tanta importância à apresentação.

Foi um exercício imaginativo profundo e acolhedor para mim, que me permitiu estar em um local e vivenciar uma situação que, sem o mecanismo da escrita, eu não conseguiria. Compartilho o texto a seguir, que escrevi como se fosse a entrada de um diário pessoal. 


Londres, dia 4 (10 de dezembro de 2007). Ida ao show do Led Zeppelin, claro. Tiramos o dia todo para isso. Logo de manhã, nos preocupamos em verificar, gravar o trajeto e calcular o tempo que levaríamos para chegar, pois estávamos longe da Arena O2. A partir da estação de Putney Bridge, tínhamos que descer em North Greenwich, fazendo uma baldeação, o que levaria mais ou menos 1 hora.

Ao chegarmos lá, fomos recepcionados por um atendente que falava pouco e era direto, mas que nos explicou de forma calma como funcionava. A Arena em si é toda coberta, o que permite aos aventureiros escalar o exterior dela, o teto, pelo lado de fora, e ter uma vista panorâmica belíssima de Londres. O passeio dura mais ou menos 1h30 e a escalada é de 52 metros. Apesar do convite para participar, nós recusamos, pois não havia guia ou audiofones em português ou espanhol. Mas esse é um passeio que eu ainda gostaria de fazer. Nós também conferimos nossos ingressos, estava tudo certo.

Aproveitamos o tempo livre para fazer compras na Oxford Street, o que me rendeu uma camiseta de £5 e um moletom de £12. Foi um pouco estranho passar o dia fazendo atividades de um turista comum quando dali a poucas horas eu sabia que estaria realizando um dos maiores sonhos da minha vida, que em nenhum momento ousei acreditar que seria possível. Foram 18 mil ingressos para mais de 120 milhões de pedidos, dá para acreditar? Acho que eu estive anestesiada durante todo esse tempo.

Mesmo assim, agimos naturalmente ao passearmos mais um pouco, andarmos pelo Hyde Park e voltarmos ao hotel para um banho. Chegamos de volta na Arena O2 cedo, logo depois de os portões abrirem. Demos uma volta, sentamos em nossos lugares e aguardamos. Eu sei que você está esperando que eu fale do show, mas isso é difícil de registrar.

Porque eu ainda sinto meu corpo tremer. Ainda tenho vontade de chorar copiosamente só de lembrar. Jimmy Page, Robert Plant, John Paul Jones e Jason Bonham na minha frente. Por umas duas horas, respirando o mesmo ar que eu. Sempre fui fascinada por essa benção do universo de permitir, por um instante, respirar o mesmo ar que uma pessoa que você gosta, mesmo que ela não tenha a mínima ideia que você existe. Como explicar a sensação de o chão cair ou o tempo parar, da mesma forma em que ele passa, impetuoso, não me permitindo viver mais nada além do presente?

Lembro de as luzes terem se apagado, de ter ficado tudo escuro. Então eu ouvi a bateria de Jason, as luzes piscando. E começou. Parecia que eles nunca tinham estado separados. Que o tempo parou em 1980, na última apresentação com John Bonham, e que tinha voltado naquele momento, com a personificação do filho na bateria.

Ver e ouvir Jimmy Page no palco é como escutar a melodia de um Deus. John Paul Jones me lembra um rei. Gosto de observar como a presença de Robert Plant é marcante: mesmo quando não está cantando para dar espaço à guitarra, ao teclado, ao bumbo, ele continua lá, dançando, interagindo e participando. Além da voz inconfundível e difícil de reproduzir; essa é a marca dele. E eles estavam todos de preto e também brilhantes.

No Quarter foi um acontecimento. Essa música, no disco original, é cheia de sintetizadores e efeitos de teclado, o que era bastante inovador para a época em que foi lançada, 1973. Ao vivo ficou magnífica, uma obra-prima. Se alguém me convidasse para escutar só os 10 minutos dela e então me dissesse que o show iria acabar, eu estaria ali da mesma forma e ainda diria obrigada. Obrigada, obrigada. Fico tentando o tempo inteiro descrever os sentimentos que essa música causa em mim, mas não encontro palavra que sirva.

John Paul Jones está teclando, mas parece que ele está flutuando e te levando junto. É calmo. É como estar chapada, sem estar chapada. Gostei das luzes que se formaram no teto da Arena durante a música: elas me lembraram uma aranha, apesar de não ter nada a ver. Mas combinaram com a atmosfera sombria. A introdução da guitarra e da bateria se encaixam perfeitamente com o teclado, como numa dança. É até sensual.

A letra da música fala sobre um caminho difícil, árduo e frio em que “não há piedade ou misericórdia”, talvez até utilizando-se da guerra como pano de fundo, mas eu nunca prestei tanta atenção nisso. Gosto da melodia. E essa versão ficou espetacular. Tive a sensação que todos ali deram tudo de si. E, no final, Robert Plant apresentou: “Piano, John Paul Jones!”. É claro. Não haveria outro.

Nesse registro também queria deixar uma menção honrosa a Dazed and Confused, que não é a minha música favorita, mas que traz a performance de Jimmy Page na guitarra com o arco de violino. Ao vivo, o som é estranhamente pior e mais feio do que eu já tinha escutado nos DVDs, mas se a ideia é imitar gemidos, ruídos estranhos, a dor e criar um som hipnótico, está tudo certo. É genial ainda assim.

Li uma entrevista em que Page diz que o Led Zeppelin ainda está vivo. E eu acredito nisso. Foi uma banda criada por ele para fazer sucesso cedo e acabar cedo devido à intensidade e à loucura, mas que continua intacta. Que bebeu do blues, do rock and roll, do folk e da música clássica. Que produziu um som que atravessa tudo isso. Que é psicodélico. É impossível de imitar. Ainda bem.

Naquele dia, por duas horas, eu caminhei com os gigantes sobre a Terra, como na biografia de Mick Wall, mas flutuei e suspendi o tempo na maior parte da experiência.

Luiza Lamas é jornalista pela Universidade Metodista de São Paulo e editora-chefe do Livriajando.

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